“Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem” é início do poema “Da calma e do silêncio”, de Conceição Evaristo (Brasil, 1946), escritora e ativista, tida como uma das mais influentes vozes da escrita contemporânea no Brasil e fundamental para os movimentos de valorização da mulher negra e para a diversidade da cultura afro-brasileira. Foi a Manuela Pimentel (Portugal, 1979) que nos trouxe a Conceição Evaristo e a sua escrita para esta exposição, num ano em que a autora celebra oito décadas de vida.
Manuela Pimentel nasceu no Porto e licenciou-se, em 2003, em Artes Plásticas – Desenho, pela Escola Superior Artística do Porto. Expõe, individual e coletivamente, desde 2001. Ao longo de duas décadas e meia, a sua prática artística explora diferentes tecnologias, que vão da pintura ao vídeo, não sendo um detalhe ter escolhido o desenho como disciplina preferencial. “Tomando a cidade como a casa, a rua como uma casa de paredes sem teto”, a artista assume cedo a posição de uma transeunte observadora do espaço público e das suas vozes, questionando semióticas e os lugares de fixação das identidades e da História. Na escuta da cidade e no processo de apropriação e transformação dos cartazes, o azulejo ressoa enquanto símbolo, sendo, na verdade, prova viva do nosso eterno espírito multicultural.
Para esta exposição na ZET, em Braga, a Liberdade total era o desafio e, depois de muitas conversas, numa visita ao atelier percebi que aquele era já um projeto coletivo de poetas e palavras, que fizera da galeria uma cidade, num mapa curatorial construído pela poesia e pelo poder da palavra.
Entre o “Largo do Pensamento Livre”, o “Túnel Nuno Júdice”, o “Jardim Alexandre O'Neill”, a “Rua Conceição Evaristo”, a “Praça Scilla Elworthy” ou “Beco Manoel de Barros”, Manuela Pimentel convida-nos para uma viagem reveladora da sua essência otimista e luminosa, expandindo a linguagem que a caracteriza.
Helena Mendes Pereira